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A MÚSICA COMO EXPRESSÃO SIMBÓLICA
Musicólogos e musicografistas situam a origem da música na origem do universo. Estes estudos nos autorizam a dizer que a música existe desde sempre. As suas funções foram se modificando de modo a acompanhar e significar cada tempo. Hoje, podemos dizer que a música expressa e comunica sentidos, sensações e emoções individuais e coletivas. Ela reflete, ao mesmo tempo que é refletora de um tempo e das sociedades e culturas que existem neste tempo.
Desta forma, podemos inferir que a música pode ser um símbolo arquetípico com funções transformadoras. Através dela o inconsciente pode ser acessado simbolicamente trazendo à consciência desejos, perdas, dores, alegrias, prazeres, decepções e desconfortos que, compreendidos e transformados, poderão trazer uma nova qualidade de vida.
Entretanto, utilizar a música como um dos recursos expressivos em Arteterapia não significa fazer uso das propriedades do Musicoterapeuta, é preciso que isso fique bem claro.
O Arteterapeuta utiliza a música como mobilizadora de material inconsciente com o objetivo de posteriormente trazer a sua expressão para um material plástico, seja desenho, pintura, colagem, modelagem, ou outro recurso. É sobre este material que é feita a decodificação.
A título de exemplificação, citaremos uma experiência.
Foi solicitado a um paciente que pesquisasse em suas lembranças, uma música que falasse de sua infância. Na sessão seguinte, foi trazida uma fita com uma série de canções e brinquedos folclóricos que foram por nós cantados. Em seguida, foi solicitado que o paciente através de tintas e pincéis, expressasse o sentimento que essas canções lhe suscitaram. Surge o relato de alguns fatos vividos àquela época que o fizeram sofrer muito. Lembrar das brincadeiras e que delas não participava porque era excluído do grupo, que quando participava era o último a ser escolhido porque o consideravam desajeitado, que sempre sobrava como “vovó” porque não conseguia fazer par... foram recordações extremamente dolorosas, mas que possibilitaram ver o quanto era discriminado e o quanto se colocava neste lugar. Foi com muito sofrimento que apontou situações atuais em que agia com este mesmo padrão de isolamento. Assumir a sua parcela de responsabilidade foi um grande passo na transformação desta atitude. Na sessão seguinte, o trabalho anterior foi novamente apresentado e solicitado que fizesse um outro que o transformasse. A produção deste novo trabalho trouxe prazer e satisfação. Cantamos com alegria novamente as canções. Na produção, ele estava agora, incluído na brincadeira de roda.
É preciso dizer que o material trazido à consciência não garante a mudança radical de atitudes, mas como em todo processo terapêutico, traz um alerta para novas confrontações. A caminhada continua. Mesmo porque, num sentido mais amplo, a jornada terapêutica é infinita...
Márcia Victório