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A MÚSICA COMO EXPRESSÃO SIMBÓLICA (Parte 3)
As artes, de um modo geral, podem funcionar como instrumento terapêutico de grande valor. A música, uma das formas artísticas, quando utilizada com função terapêutica, pode atingir níveis profundos do inconsciente, ajudando a decodificar conteúdos difíceis de serem comunicados verbalmente.
Quando falamos em música, falamos em som e silêncio. Esses dois elementos podem ser considerados a sua matéria básica. Do jogo formado entre ambos, som e silêncio, surgem infinitas possibilidades musicais. Podemos afirmar que a música nasce e se conserva no silêncio, pois é no silêncio que encontramos o sentido musical. Quanto ao som, são os parâmetros (altura, intensidade, duração e timbre), que garantem essa multiplicidade.
A altura refere-se à freqüência das ondas sonoras: varia do muito grave ao muito agudo. Numa perspectiva simbólica, seria possível associar altura à profundidade das emoções.
A intensidade relaciona-se ao ataque de força na produção do som. Muita intensidade (muita força), sons fortes; pouca intensidade (pouca força), sons suaves. Ainda que em nível de sugestão, podemos associar a intensidade/força ao caráter impositivo nas ações.
A duração refere-se ao tempo em que se percebe o som. Desta forma, sons longos duram muito tempo e sons curtos, pouco tempo. Também podem referir-se às variações de andamento na música, ou seja, músicas rápidas e músicas lentas. Neste caso, podemos considerar o caráter fugidio, superficial, nas músicas rápidas e o caráter sereno, determinado, nas músicas lentas.
O conceito de timbre está ligado à característica digital, única, de um som. É aquilo o torna reconhecível. Pode ser metálico, aveludado, estridente, suave, delicado, arrojado, etc. Ligado ao caráter sensorial e, por assim dizer, às memórias.
Relacionando silêncio com memórias esquecidas, trazemos um fragmento de sessão arteterapêutica.
Rubens (nome fictício) é um rapaz de 28 anos, estudante, dependente financeiramente de seus pais e sem relacionamento amoroso fixo. Após nove meses de terapia, proponho que se sente confortavelmente e feche os olhos. Começo a pronunciar o seu nome durante cerca de oito minutos, utilizando diversos recursos vocais, como por exemplo:
Rooobson... Robiiinhooo... Binho... ROBSON (rispidamente)...
RobSOOOMM... Roooobson son son... ROBSON... ROBSON…
Robson (entredentes)... binho (susurrando)... ROBSON… etc.
Fico em silêncio por alguns instantes e, após, peço que lentamente abra os olhos, dirija-se para a mesa e produza uma imagem que reflita suas sensações e sentimentos. Robson desenha um menino jogando bola. Peço então, que fale sobre o trabalho. Relata que há muito não se sentia dono de seu próprio nome, que teve recordações de sua infância, de como sua mãe o chamava e de como seu pai o repreendia, trazendo a tona, ressentimentos, raiva, medo, impotência, insegurança. Fala que se sentiu como um garotinho. Fica em silêncio. Seus olhos se enchem de lágrimas e pergunta: “Será que eu ainda sou esse garotinho?”. Essa dolorosa constatação proporcionou a este rapaz a possibilidade de crescimento, levando-o a assumir responsabilidades do adulto que, de fato era.
Robson hoje tem 30 anos, formou-se, conseguiu um emprego e namora uma moça há seis meses, fazendo, inclusive, planos de casamento.
Neste caso, a utilização dos diversos parâmetros sonoros facilitou a manifestação de material inconsciente posteriormente compreendido, o que proporcionou crescimento e harmonia.
“É na emoção e com a emoção que a música
nos devolve o autêntico material expressivo,
num lento processo de alquimia
que transforma nossa essência mais profunda em
harmoniosa melodia celestial ”.
(Fregtman)
Márcia Victório