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ILUSÃO E ARTE
Mauro Andriole
A relação
entre a Arte e a Ilusão é absolutamente indissolúvel.
Se o artista é tomado por um desejo de realização
do Belo a partir de sua interioridade, na qual, um objeto se eleva
à paradigma da Beleza, é porque não há freios
nesta experiência, vivida de fato, que o impeçam de justificar
seu propósito artístico.
E assim, o ímpeto criador encontra seu curso livre para a realização
da obra, mesmo que ela retenha apenas a Ilusão de ser o objeto
que lhe dá um sentido aparente, pois, tanto quanto o Mito, a obra só
alcança seu significado verdadeiramente na representação
de si mesma, por mais que isto pareça impossível ao olhar leigo.
Só há sentido na criação, quando a Ilusão a que o
artista está acometido, suspende seu domínio lógico,
ou seja, quando as bases de sua realidade ordinária, da objetividade
intrínseca que fundamenta sua razão, se sublimam ante o que
é extraordinário, assim alargando, por assim dizer, os
limites da noção de realidade.
Daí, dizermos que o domínio da Arte é autônomo, e sua
lógica - se é que este termo é o adequado para
isto - consiste em algo mais do que o possível e o impossível,
aquilo que instaurando novas bases, cria o meio e a forma da realidade
inefável tal como o paradigma da realidade.
A autonomia do artista está justamente em sua utopia, neste sonho e desejo
de realizar a tradução desse universo inefável para uma
linguagem compreensível à razão, porém, quando
o faz, ela fala numa língua liberta de meios exclusivos, e ultrapassa
todo e qualquer senso comum. E desta forma, mais do que traduzir seu desejo,
o artista constitui uma linguagem perfeita, porque sua forma
é universal por excelência, seu discurso visa e deve atender
a necessidades independentes de quaisquer fatores culturais, políticos,
filosóficos ou religiosos, dizendo seu conteúdo a
todos que a contemplem. É neste sentido que se identifica com o
Mito, porque ao atingir este poder de Iludir, continua representativa e significativa
indefinidamente no tempo.
Temos portanto, que é na Arte que a dimensão extraordinária
se manifesta abertamente.
Isto ocorre porque esta é a natureza da Arte. A Obra de Arte
verdadeira é uma realidade perfeita em si mesma, independente
da autoria, da data ou da técnica escolhida para sua materialização.
Manifesta no mundo, ela torna-se potência pura, inesgotável em seu
poder de indução. Trata-se da realização de
um Cosmo, que atravessa os limites da fugacidade sensorial e se
instala na matéria e na consciência, trazendo para o plano real,
as idéias de eternidade, imortalidade e universalidade.
Nesse sentido é que a Arte é a manifestação da
Beleza Suprema, é nela que o espírito humano busca o que lhe
sobrepassa e ao mesmo tempo lhe confere uma distinção
entre todos os outros animais.
No entanto, a Arte revela este poder de persuasão através
da Ilusão, porque despida de seu significado emocional, reduz-se a
matéria amorfa. Não há Arte que resista em seu esplendor
total quando posta à indiferença e mediocridade humanas. Restará
apenas uma sombra sem um corpo que lhe justifique, e o mesmo se pode dizer
daquele que desce até onde a luz da obra de Arte não pode lhe
alcançar.
De fato, a comunicação de um conteúdo através da
Obra, só pode se dar plenamente quando os fatores culturais
colaboram para isto. De modo que, o mesmo conteúdo seja lido
por povos distintos, sob formas distintas, ou até mesmo, anulado em
sua integridade, quando ela não encontra similitude no seio da sociedade.
Não
podemos desprezar as diferenças entre a percepção
de civilizações ancestrais diante do objeto de Arte moderno,
como ocorre com os povos indígenas isolados da cultura branca - caso
dos aborígenes australianos ou dos ianomamis do norte da América
do Sul - diante do quais, a foto de uma paisagem, não representa mais
do que um pedaço de papel colorido, e jamais “alguém ou
uma paisagem”; reagem distanciando-se largamente da noção
moderna do que é uma reprodução de espaço e
tempo, fato que nos chega de imediato devido a formação
cultural que nos dá bases para isto.
Por
outro lado, a despeito desse caso específico, há casos em que
as barreiras culturais não impedem o fenômeno da Ilusão,
e este é o nosso interesse.
É
exatamente quando os limites da cultura cessam sua influência sobre
a apreensão do conteúdo da Obra, quando a Ilusão recai
igualmente sobre qualquer homem, que o fenômeno artístico se
modifica, e distingue-se da forma como apresentava-se antes. Tudo se altera
com o advento da imagem virtual, criada recentemente pela manipulação
dos recursos tecnológicos.
A
imagem digital de um peixe, vista num monitor, será sempre percebida
igualmente em sua integridade, por qualquer homem contemporâneo?
Será
que ela dirá seu conteúdo, até mesmo para o homem
isolado deste tipo de representação tecnológica?
Chegamos
a Ilusão plena? Talvez...
Mas
antes de discutirmos essa questão, precisamos entender em que contexto
o artista também se modificou diante de tais recursos.
Será
que a conquista do espaço virtual modificou o artista em seu
desejo de realizar a tradução da Beleza?
Por
que este desejo estaria relacionado às mudanças que os meios
técnicos sofreram?
Aparentemente,
não há como dissociar a apreensão sensorial, dos meio
disponíveis para representá-la. Daí, toda transformação
nos meios geraria uma alteração na percepção
do que pode ou não ser representado pelo artista.
No
entanto, o modelo ideal, que condiciona o gesto criador, não
é suficientemente rígido para permitir uma só resposta.
Podemos arriscar, que no mais das vezes, estas transformações
vem para cercear práticas artísticas consideradas antigas,
em detrimento das inovações do aparato técnico,
que desvelam a cada tentativa do artista, uma nova chance para saciar sua
ânsia de realizar a obra.
Mas
de que modo o meio pode condicionar a apreensão do desejo criador
se ele só é posto em uso posteriormente?
O
que quero dizer, é que nada pode limitar o desejo de representação
a parâmetros fixos, de modo que a descoberta que vem à luz sob
outros meios, ganha contornos novos incessantemente, de outro modo, nem poderíamos
chamá-la de descoberta verdadeiramente. E durante esse processo
criativo investigativo, as formas desveladas são por si mesmas
muito mais eficazes para o curso que a obra tomará, do que a própria
idéia original de onde partiu o gesto. Seria algo como a obra da obra,
pois a cada experimentação, a cada nova investida, o modelo
sofre mutações para ajustar-se a esse todo. E isto se revela
igualmente na realização artística, desde a primeira
mancha pré-histórica numa caverna até chegar ao nosso
click do mouse contemporâneo.
Mas
esta seria uma condição inevitável ou natural? O
artista é refém da técnica ou é senhor dela no
momento da criação da Obra?
Na
verdade, o foco do artista nunca dependeu totalmente do meio que dispunha
para executar sua Obra, ao menos, não há razões para
esta limitação, mas, pelo contrário, ao nos deparamos
com Obras colossais, como as esculturas de Michelangelo, por exemplo, é
difícil duvidar do quanto este gênio realmente estava seguro
de sua realização antes de golpear o mármore. Contudo
sua segurança se encontrava enraizada profundamente em seu desejo criador,
sublimando qualquer dúvida quanto ao modo de realizá-la.
O
desafio diante da realização da Obra, já é parte
da primeira etapa do processo criativo, sobre isto não precisamos ter
dúvidas.
Mas
em que instante a Ilusão permeia esse empreendimento criador?
Ora,
durante todo o tempo, pois o artista parte de uma impossibilidade:,
ele pretende consagrar um instante expressivo na matéria amorfa,
ignorando os limites físicos, e inaugurando um novo tempo com este
espaço, ele desoculta o espaço extraordinário,
como dissemos antes. O gesto iluminado na obra escultórica está
absolutamente transcorrendo em nossa apreensão, e permanece petrificado
a despeito do que sentimos como verdadeiro! Isto é extraordinário!
Temos
que ter em mente, que o termo extraordinário visa a distinção
do que é o ordinário, no sentido do que não se
insere na ordem do dia comum, e transcende o sentido que tem a produção
de bens de consumo, intrinsecamente efêmeros por necessidade mercadológica.
A Obra situa-se no extremo oposto dessa natureza de objetos, e só
pode nascer de uma necessidade igualmente extraordinária, que abranja
esse sentido transcendental, que é imanente na Arte.
Dizemos que a Ilusão recai sobre todo artista e sobre a Arte, porque
é justamente esse universo que o coloca em questão sobre o que
é a realidade.
De
fato, nossa noção de realidade se funda, quase em sua totalidade,
na crença de que conhecemos as coisas tal como elas são. Mas
o que diríamos acerca dos que ignoram nossas descobertas modernas,
hoje tão corriqueiras, como as pilhas ou a luz fosforecente?
Não
precisamos recuar muito para percebermos que a realidade atual era
uma ficção, ou talvez nem isso sequer, pois nem havia a possibilidade
de imaginar tais conquistas, já que o desejo que as motivou não
pulsava nas veias humanas.
Será
que é possível crer que alguém desejasse um aparelho
para exercitar a corrida e que não ocupasse espaço na casa?
Um esteira pareceria uma boa idéia em 1800? Só se servisse
para transportar cargas pesadas talvez...mas para alguém correr sobre
ela? E assim, o mesmo poderíamos dizer sobre inúmeros objetos
que hoje são imprescindíveis, como o abridor de latas, as lâminas
descartáveis, os filtros de papel para o aspirador de pó, etc,
etc e etc...
O
desejo humano se transformou, e com ele, a realidade assumiu contornos
definidos para a época e para as crenças vigentes.
Então,
o que é a realidade de fato? Esta
é uma pergunta que não impede o artista de crer que contribui
de algum modo para desocultar faces misteriosas do espírito humano,
e abre seu Cosmo para todos, como se ele fosse verdadeiramente o de todos
nós. Sua obra é Iludir-se de que não há ilusões
mas apenas realidade.
Andriole, Mauro. Arte. Internet, disponível em http://www.casadacultura.org/arte/artigos_s_artes/gr01/arte_e_ilusao.html.