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PALHAÇOS SÉRIOS!

Encenação de Gabriel Carmona restabelece o significado da palavra palhaço!



A palavra palhaço, em detrimento das distorções econômicas e sociais de nosso país, sofreu algumas alterações quanto ao seu significado. Palhaço pode ser aquele que anima festas, aquele que anuncia promoções na frente de estabelecimentos comerciais ou ainda aqueles que, não satisfeitos com seus papéis nas câmaras, prefeituras, gabinetes, se envolvem em falcatruas tão bem planejadas que os roteiros da commedia del’arte se tornam ultrapassados, tamanha a engenhosidade desses homens que se atrevem a assumir um papel tão importante. Em vários lugares podemos localizá-los, independe do verdadeiro significado de suas atuações. Outro dia vi um deles andando sobre uma motocicleta anunciando promoção de um açougue! Mas basta ligarmos a televisão que eles também aparecem!

A definição do Aurélio talvez restabeleça o significado verdadeiro da palavra palhaço: “Artista que, em espetáculos circenses ou em outros, se veste de maneira grotesca e faz pilhérias e momices para divertir o público. Pessoa que por atos ou palavras faz que os outros riam. Pessoa que só diz tolices e faz papel de ridículo”.

Palhaços, a montagem realizada no Folias D’Arte vai além dessas definições. A começar pela corajosa e ousada direção de Gabriel Carmona. Para chegarmos às arquibancadas da platéia, em vez de entrarmos pela porta da frente, atravessamos um corredor que dá acesso a um camarim: o pequeno local da encenação. Passamos entre as roupas penduradas nas araras como se estivéssemos invadindo a privacidade de algum artista. Tudo muito intimista, assim como a relação que se estabelecerá entre um fã (Danilo Grangheia) e um palhaço (Dagoberto Feliz). Feliz também é o aproveitamento do espaço, explorando escadas e outros planos além daquele que se concentra a maior parte da encenação.

A simplicidade é a tônica do espetáculo - sustentado basicamente pela qualidade da direção e das interpretações. Simplicidade complexa pois, tanto a encenação quanto os atores superam e aprofundam os conteúdos propostos pelo texto de Timochenco Webi. Apostam numa leitura dialética diante dessa relação entre o homem comum e o artista! Em pouco mais de uma hora de encenação, vemos um vendedor de sapatos, vestido comumente, com atitudes clownescas e um clown de fato se transformando em um homem com atitudes cruéis. Isso feito de forma quase imperceptível e elaborado com interpretações soberbas. E como se não bastasse o pequeno espaço físico entre platéia e cena, à medida que fã e artista se aproximam, nós expectadores, somos arrastados ainda mais para dentro da cena, seja pela concepção ou pela atuação precisa dos dois atores. Dialogando com essa dualidade do homem, Carmona imprime ainda às interpretações, um certo estranhamento (uma quebra daquilo que nos parece familiar, como dizia Brecht): ora parecem ser figuras, ora parecem ser personagens. Um fio muito tênue entre o realismo e o épico que acrescentam e aprofundam a temática do texto.

Contribuem ainda para a qualidade dessa encenação, a musicalidade inconteste de Dagoberto Feliz. Seu acordeon e suas qualidades vocais aparecem como partituras, rubricas insubstituíveis ao contexto do espetáculo. Da mesma forma, se configura a iluminação de Erik Buzoni. Até o abrir de uma pequena gaveta da penteadeira do palhaço é iluminada por uma delicada incandescente azul. Uma equipe muito pequena, mas competente.

Diferentemente dos últimos bufões que tomam conta das páginas de jornal de nosso pais, esses palhaços que se encontram no Galpão do Folias são sérios. São trabalhadores e decoram e reinventam o texto com o firme propósito de transformar o pensamento. Regem uma platéia entre risos e silêncios, silêncios e risos preenchidos por meio da sensibilidade de quem faz arte. E os climas que oscilam entre o sublime e grotesco se dão apenas no campo da ficção.

Evill Rebouças

Serviço: Palhaços
De: Timochenco Webi. Com Dagoberto Feliz e Danilo Grangheia
Galpão do Folias – Rua Ana Cintra, 213 – SP. Fone (11) 3361.2223
Sextas e Sábados: 00h13 (meia noite e treze)

Evill Rebouças é ator, dramaturgo, diretor teatral e arte-educador. É graduado em artes cênicas pelo Instituto de Artes da Unesp – Universidade Estadual Paulista e atualmente pesquisa na mesma instituição A dramaturgia e a encenação no espaço não-convencional, objeto de seu mestrado.

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