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TRAÇOS REVELADORES
A psique retratada nas obras de pacientes de sérias patologias e outras revelações
Impossível traçar a conexão entre Psicologia e arte sem citar o nome de Nise da Silveira. Nascida em Alagoas, em 1905, ela foi a única mulher a se formar na sua turma, pela Faculdade de Medicina da Bahia, em 1926, época em que a formação universitária era impensável para a maioria das mulheres.
O pioneirismo sempre marcou seu trabalho como psiquiatra e terapeuta. Ela foi fundadora da Seção de Terapêutica Ocupacional no antigo Centro Psiquiátrico Nacional (Pedro II), em 1946, e dez anos depois, com a participação de outros colegas, fundou a Casa das Palmeiras, clínica de reabilitação para pacientes egressos de instituições psiquiátricas. Nise foi uma das primeiras a acreditar e, como profi ssional de saúde, a investir na inclusão social do paciente psiquiátrico. Na Casa das Palmeiras atividades expressivas como pintura e modelagem em argila passaram a ser utilizadas como principal método terapêutico.
Nise se contrapunha a alguns re cursos que passaram a ser utilizados na época e que ela acreditava serem tão violentos quanto inócuos. O eletrochoque havia sido utilizado pela primeira vez em 1938, por Ugo Cerletti, e, de modo controlado, é aplicado ainda hoje. Mais ou menos no mesmo período foram introduzidos o coma insulínico e a lobotomia, cirurgia cerebral que anulava os lobos frontais. Este tipo de intervenção era indicado para pacientes que apresentavam comportamento repetitivo e obsessivo.
Desde 1950 o uso desses recursos entrara em declínio, sendo substituído por novas drogas, os neurolépticos. To-
dos esses métodos, no entanto, provocavam seqüelas criticadas pela psiquiatra, que procurava evitá-los. Afora isso, seus trabalhos começavam a obter bons resultados e reconhecimento, servindo de incentivo para o aprofundamento das pesquisas sobre doenças mentais. Consolidava-se, nesta época, por Nise da Silveira, uma espécie de terapia da arte.
OUTROS PIONEIROS
A produção nos ateliês terapêuticos da especialista se avolumava, até surgir, em 1952, o Museu de Imagens do Inconsciente (veja quadro Incontáveis obras, pouco espaço). O Museu passou a integrar as obras produzidas nos ateliês, trabalhos cujo objetivo era estimular a expressividade dos freqüentadores de suas oficinas e, em uma relação de afeto estabelecida com seus monitores, dar vazão à criatividade e promover a integração social de doentes mentais.
Nesse campo, destaca-se também o crítico de arte e psiquiatra paraibano Osório César, que começara a atuar já na década de 1920 no Hospital do Juquery, em Franco da Rocha (SP). Ele também havia se interessado pelo potencial criativo de pacientes psiquiátricos e aprofundado seus estudos das relações entre arte e inconsciente. Em 1929, publicou A expressão artística nos alienados. Escreveu também, em parceria com Durval Marcondes, uma série de artigos que exploravam esse tema. O trabalho na Escola Livre de Artes Plásticas do Juquery – que havia sido criada em 1948 com a denominação de Seção de Artes Plásticas – também passou a ser comandado por Osório César a partir de 1950.
Um registro importante do trabalho deste médico está presente no livro Arte e inconsciente: três visões sobre o Juquery (Instituto Moreira Salles) que reúne fotos da fotógrafa alemã Alice Brill, desenhos do artista plástico Lasar Segall e obras de pacientes internados no hospital. O interesse de Segall pelo tema da loucura havia surgido em 1919, após uma visita ao Sanatorium Weis ser Hirsch, em Dresden, Alemanha.
O estilo é a personalidade do artista. A liberdade de traços que Picasso revela estaria relacionada com sua liberdade de vida
Foi nesta visita que realizou os esboços de No manicômio, gravura em metal. Em 1942 foi a vez de conhecer o Juquery, a convite do médico Osório César, visita que rendeu uma série de trabalhos, desenhos produzidos à pena com tinta sépia sobre papel.
Maria Heloisa Corrêa de Toledo Ferraz, doutora em Artes e consultora de arte-educação, relata nesse mesmo livro que o interesse em estudar e colecionar obras de pacientes psiquiátricos asilados havia surgido no fi m do século XIX, com o empenho de psiquiatras, pesquisadores, artistas e intelectuais debruçados nessas tarefas. Já no século XX, como ela observa, muitas das coleções desta natureza “surgiram a partir das mudanças de paradigmas estéticos modernistas e pelas particularida-
des das obras e de seus autores como, por exemplo, a Coleção de L’Art Brut, de Jean Dubuff et”.
LOUCURA ARTÍSTICA
Não foi apenas a produção criativa de pacientes psiquiátricos que despertou o interesse de especialistas para a pesquisa científi ca ou para seu enquadramento como expressão artística legítima. Também muitos artistas passaram a olhar a loucura e a produção dentro das instituições psiquiátricas como inspiração para sua própria criação.
O público parece ter assimilado desde cedo essas primeiras interações entre arte e as afecções da mente. Tanto que a primeira exposição organizada em 1933 por Osório César, no Clube dos Artistas Modernos, em São Paulo, foi concebida como a Semana dos loucos e das crianças e, dada a sua repercussão, transformou-se em Mês dos alienados e das crianças.
Ainda se discute o valor artístico de obras produzidas por pacientes psiquiátricos, mas a sociedade, por vezes, demonstra ter avançado bastante nessa discussão. Tanto que a produção desses “pacientes-artistas” já em incontáveis oportunidades tem ganhado espaço em exposições inequivocamente artísticas, como foi ocaso da Bienal Internacional de São Paulo.
João A. Frayze-Pereira, professor livre-docente do Instituto de Psicologia da USP e psicanalista do Instituto de Psicanálise da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, afi rma em seu trabalho Nise da Silveira: imagens do inconsciente entre Psicologia, arte e política: “(...) para Nise da Silveira, o movimento através [sic] do qual as imagens
brutas são elaboradas em formas dotadas de qualidades ditas artísticas ‘não foi jamais explicado
por nenhuma Psicologia’. Como o artístico é fabricado pelo artista? Eis aí ‘um mistério’ que, segundo [o crítico] Mario Pedrosa, nem o artista, nem o cientista nunca chegaram a decifrar.
UNIÃO TERAPÊUTICA
Segundo Joya Eliezer, arteterapeuta e fundadora da Associação Brasileira dos Terapeutas da Arte, a integração entre psicologia e arte no contexto terapêutico permite várias possibilidades.
Uma delas é a expressão socialmente aceita e que não causa problema – para quem faz ou para quem recebe – de instintos e manifestações do ser. Essas manifestações podem ser mais superficiais ou até muito profundas, permitindo a expressão, a liberação e a comunicação consigo mesmo e com o outro. Tal comunicação torna-se possível porque a arte torna-se linguagem.
Outra possibilidade da expressão artística no contexto terapêutico é o desenvolvimento da criatividade
e a elaboração estética, permitindo viver de forma mais criativa e mais equilibrada.
Em sua tese de mestrado, Um estudo da criatividade artística e da elaboração estética em estudantes de arte através do psicodiagnóstico de Rorschach, Joya defende a arte como instrumental terapêutico que facilita a inclusão social de pessoas com deficiências, físicas e mentais, ou em reabilitação social (como as que perderam emprego, por exemplo).
“As diferenças diminuem e a inclusão social é mais rápida”, afirma. “A atividade artística bem dirigida também pode harmonizar o corpo em movimento, principalmente quando a abordagem é bioenergética ou psicossomática. O corpo já se reorganiza ao fazer a arte. Isso decorre da postura correta, da relaxação promovida pela atividade, pela diminuição das tensões, o que se observa principalmente na arte-reabilitação”, completa.
Outro benefício importante da utilização da arte no contexto terapêutico é o fato de a pessoa passar a pertencer a um grupo, saindo da obscuridade e da negatividade. “O indivíduo adentra a sociedade pertencendo a um grupo. Para idosos, por exemplo, esse é um passaporte cultural que lhe confere identidade grupal. O mesmo ocorre com os oprimidos, com doentes mentais”, conclui Joya. Ela explica que a passagem é de uma identidade negativa para outra mais bem-aceita socialmente; a da pessoa que produz arte. Mudar a posição, de doente mental para artista, funciona como um passaporte para a integração social.
A expressão artística proporciona, além disso, autoconhecimento, auto-aceitação e, pela observação
da própria produção, o paciente vê, toma consciência e pode se corrigir. Por exemplo, ao observar que está muito agressivo em sua arte, o paciente tem a possibilidade de se tornar mais suave, na arte e também na vida. Pessoas mais saudáveis conseguem perceber esse tipo de coisa, sozinhas. Aquelas mais regredidas precisarão da intervenção do terapeuta.
Uma característica bastante presente em pacientes com transtornos mentais é a baixa auto-estima, característica que confere ao portador a difi culdade de aceitar o que faz. Neste caso, cabe ao terapeuta destacar o que há de positivo em sua produção, observando os aspectos positivos do trabalho.
A arte unida ao recurso da Psicologia também pode ter outra tarefa relevante: a elaboração de um diagnóstico. “A avaliação de alguém por meio de sua produção artística já é uma ciência que a Psicologia vem desenvolvendo há muitos anos”, afirma a arteterapeuta. Há basicamente dois tipos de avaliação diagnóstica com o uso da arte: a evolutiva, que demanda um acompanhamento ao longo do tempo, e o diagnóstico diferencial, que resulta de várias observações em diferentes trabalhos.
É possível, claro, a partir de determinadas características ou traços artísticos fazer certas ilações que contribuam para a elaboração do diagnóstico, mas Joya Eliezer alerta para a arbitrariedade de se tentar estabelecer essa relação levando em conta um único aspecto. “Fazer desenhos e escrever em espiral, por exemplo, formando uma fi gura em caracol, pode aparecer tanto na produção de um aluno mediano de arte, na de um grande artista e na de um paciente psicótico. Por isso o terapeuta não vê o sinal, ele olha para o conjunto”.
Da mesma forma, é comum notar que o autista costuma cobrir, com tinta branca ou preta, o que produz no papel. Mas não se pode
inferir que um desenho com essa peculiaridade seja sempre de um autista. Também pode ser de uma pessoa muito nervosa, com baixa autoestima, mas sem nenhum traço de autismo. Por isso, nunca se analisa um único traço.
Em geral, o que se observa na obra de uma pessoa doente mental é que ela causa desarmonia. E a harmonia resultante da presença de oito a 15 critérios, como uso adequado das cores, dos sombreados, da textura, utilização do espaço, adequação do tema, entre outros.
Também na observação da obra de artistas consagrados é possível encontrar características reveladoras de sua personalidade ou estilo de vida. “A liberdade de traços que Picasso revela poderia estar relacionada com a sua liberdade de vida. Seus traços refl etem imediatamente isso. O estilo é a personalidade do artista. Amedeo Modigliani (pintor integrante da escola de Paris) fazia fi guras com pescoços enormes. Uma das hipóteses levantada por pesquisadores de sua obra é que ele tivesse problemas respiratórios. Da mesma forma, o que paciente vai expressar é o que tem dentro de si. E assim se observa que no psicótico em surto a obra se desorganiza. E isso é possível ver em alguns quadros de Van Gogh. Como disse o fi lósofo Merleau-Ponty, ‘eu sou a obra; a obra sou eu’”, conclui Joya.
Aliás, no universo artístico são inúmeros os exemplos de traços marcantes e reveladores do autor. O pintor e escultor colombiano Fernando Botero é famoso pelas fi guras opulentas que representa em sua obra. O mais provável, sugere a arteterapeuta, é que sejam projeções de si mesmo. Seria um sinal de narcisismo? Isso não se pode afi rmar sem antes ser feita uma análise profunda e muito criteriosa de sua vida. Leonardo da Vinci, por sua vez, tendia a incluir elementos da natureza em sua produção artística e, na avaliação de Joya, ele foi o primeiro grande ecologista da história. Na obra de pacientes mentais ou não surgem muitos elementos passíveis de elaboração científi ca. “E o que eu aconselho a todas as pessoas, com sofrimento psíquico ou não, é experimentar a delícia da sensação de auto-expressão. E isso não ocorre só com as artes plásticas, mas também com a dança, a música, o teatro, a literatura”, conclui a arteterapeuta.
Incontáveis Obras, Pouco Espaço
O Museu de Imagens do Inconsciente foi inaugurado em 1952, a partir dos ateliês de pintura e modelagem da Seção de Terapêutica Ocupacional, organizada por Nise da Silveira em 1946, no Centro Psiquiátrico Pedro II. Encontrou sentido na abundância de produção de obras artísticas e no grande interesse despertado para a pesquisa científica. Em 1957, Nise participaria do II Congresso Internacional de Psiquiatria, em Zurique, expondo obras de seu acervo. Coube a Carl Gustav Jung
a abertura dessa exposição. As instalações inauguradas pela psiquiatra funcionam até hoje.
No início, os ateliês de Nise tinham como principal objetivo oferecer ao pesquisador condições para o estudo de imagens e símbolos e o acompanhamento da evolução de casos clínicos por meio da produção plástica espontânea. “Na atualidade foram incorporadas aos ateliês originais, como os de pintura, desenho e modelagem, ofi cinas como as de jardinagem e tai-chi-chuan”, explica Eurípedes Júnior, responsável pelo setor de Pesquisa e Divulgação do Museu, que encabeça exposições, cursos e seminários em vários pontos do País. Algumas das preocupações de hoje são a organização e o acondicionamento adequados do acervo, além de seu processo de digitalização, que visa facilitar o trabalho dos pesquisadores. Esse projeto vem sendo desenvolvido em parceria com o Museu Nacional de Belas Artes e engloba, sobretudo, as produções desenvolvidas até 1999, que, tombadas, somam 130 mil exemplares – trata-se, junto a obras mais recentes, do maior acervo em quantidade do País. Mas com o menor espaço para exposição.
Entre as atividades promovidas, além dos ateliês, estão os grupos de estudos, formatados pela própria psiquiatra em 1968. O objetivo principal é o acompanhamento do processo psicótico por meio de imagens apresentadas em exposições. O grupo tem caráter interdisciplinar e visa a constante troca de informações entre profi ssionais da Psicologia, Psiquiatria, Antropologia, História, Arte e Educação. O grupo reúne-se com regularidade as terças-feiras, às 10h30 e é aberto a todos os interessados.
PACIENTE-ARTISTA
O público visitante do Museu ainda é pequeno, mas vem crescendo signifi cativamente, cerca de 30% ao ano. É bastante eclético, reúne tanto historiadores de arte quanto psicólogos, profi ssionais de enfermagem e estudantes do ensino médio, entre outros. “As exposições atraem também muitos visitantes de outros estados e o interesse deles cada vez menos se restringe à saúde mental”, afi rma Eurípedes Júnior.
Sobre o trabalho realizado nos ateliês, a psicóloga Gladys Schincariol, que ingressou no Museu em 1974, ainda ao lado de Nise da Silveira, comenta:
“Fiquei impressionada com os resultados terapêuticos obtidos.” As obras dos clientes do ateliê constituíam verdadeiros ‘retratos da alma’. “Apesar do fascínio da arte e de ser tão graticante observar quando uma produção ultrapassa a questão terapêutica para entrar no campo vasto da arte, a Nise tinha o cuidado de não usar a palavra arte. O importante é a criatividade ultrapassar o limite da linguagem, permitindo que o desenho, a pintura, a modelagem falem muito mais que palavras”, explica a coordenadora de projetos do museu.
As imagens revelam de fato o sofrimento ou o espanto de seus autores. “O esquizofrênico ouve mesmo vozes. Na medida em que tira aquilo de dentro do seu psiquismo, pode lidar melhor com esse conteúdo depois”, explica Gladys. “É bonito ver no cotidiano o menino que desenha primeiro um super-herói. Depois ele acessa o universo feminino, desenha uma mulher. A princípio mais forte, depois mais suave. É bonito acompanhar esse processo”.
Uma regra básica ali é nunca sugerir nenhum tipo de tema. É importante que o trabalho seja espontâneo, livre. E há, de fato, pessoas com talento artístico. Mas, o primordial nos ateliês é usar a expressão artística como forma de tomar contato com o inconsciente.
O Museu está aberto à visitação pública de segunda a sexta-feira, das 9h às 16h, com entrada franca. Visitas monitoradas para grupos devem ser agendadas.
REFERÊNCIAS INCOMPLETAS
A tentativa de se fazer uma conexão entre Psicologia e arte não é recente e vem se consolidando já há algumas décadas. Uma das referências teóricas sobre o tema é o psicólogo Lev Vigotski, que escreveu Psicologia da Arte entre os anos de 1924 e 1926. A própria obra se apóia em uma vasta pesquisa bibliográfi ca realizada pelo autor. Na versão brasileira, editada pela Martins Fontes em 1999, o texto é vertido diretamente do russo pelo competente tradutor Paulo Bezerra. A obra está dividida em quatro partes: “Metodologia do Problema”, “Crítica”, “Análise de Reação Estética” e “Psicologia da Arte”.
Na primeira parte do livro, Vigotski descreve o campo específi co da Psicologia da arte, separando-a da Sociologia da arte. Em “Crítica” o autor resenha os principais trabalhos já existentes, agrupando-os em três vertentes: a arte como conhecimento, a arte como procedimento e arte e Psicanálise. E o termo “crítica” procede na medida em que ele aponta erros ou limitações nesses textos, sem esquecer, obviamente, de apontar seus acertos. Em “Análise de Reação Estética”, o autor analisa obras literárias que vão de fábulas ao Hamlet, de Shakespeare. Na última parte, em “Psicologia da Arte”, Vigotski discute questões teóricas sobre o tema. Seus estudos foram ignorados por bastante tempo, mas a obra foi retomada e referenciada por outros autores, sobretudo, a partir da década de 1980.
O reconhecimento da Psicologia da Arte como disciplina também é relativamente recente, embora este ramo do conhecimento seja antigo dentro da Psicologia. O Laboratório de Estudos em Psicologia da Arte (Lapa), que tem à frente, como coordenador, o professor João Augusto Frayze-Pereira, foi fundado em 1993, no Instituto de Psicologia da USP. O Laboratório desenvolve ati-
vidades dedicadas à pesquisa e funciona também apoiando o intercâmbio transdisciplinar nessa área. Seu objetivo central é o desenvolvimento de estudos e de atividades que contribuam para compreensão da arte, em suas várias linguagens, a partir do contexto psicossocial e, ao mesmo tempo fomentar o desenvolvimento de estudos e atividades que contribuam para o
entendimento dos fenômenos psicossociais a partir de diferentes manifestações e contextos artísticos.
Na teoria e na clínica, um inacabado arcabouço
Vários estudiosos têm se dedicado a pensar as tramas da irterrelação entre Psicologia e arte. Em artigo divulgado em 2004 na revista eletrônica da Faculdade Evangélica do Paraná, Maria Aparecida Kuerten afi rma: “Praticar a arte é como desenvolver um projeto em nível mental; podemos modifi cá-lo, refazê-lo até o ponto em que nos agrade. Podemos ainda verifi car a sua funcionalidade e, somente depois passar à execução, caso seja viável. Com esta prática tornamo-nos aptos à verifi cação dos nossos projetos de vida, questionando-os e corrigindo-os”. Maria Aprecida Kuerten é artista plástica, bacharela em Filosofi a, pós-graduada em Metodologia da Ciência e Didática do Ensino Superior e, na época da publicação, estudante de Psicologia.
A arteterapeuta Joya Eliezer destaca no artigo A arteterapia chegou ao Brasil (Revista de Psicologia Catharsis), “as contribuições da Antroposofi a, da Psicanálise, da Psicologia profunda, das abordagens existenciais e holísticas, destacan-
do nomes como Margaret Hauschka, Freud, Melanie Klein, Jung, Margaret Naumburg, Donald Winni cot, Janie Rhyne, Nathalie Rogers, Nise da Silveira e Suzan Bello, que fi zeram da Terapia pela arte um método”. Joya, que é fundadora da Associação Brasileira dos Terapeutas da Arte, ressalta também neste texto os benefícios que podem ser proporciona-
dos pela utilização da terapia pela arte. Entre eles, estão a melhora da comunicação, o processo de independência do cliente em relação ao terapeuta, o abreviamento do tempo de tratamento e o favorecimento da busca de harmonia. Ela alerta, ainda, para alguns perigos que podem decorrer dessa prática e aos quais o terapeuta deve estar atento: confundir a psicoterapia com o prazer da auto-expressão, fi xação na criação estética em detrimento do real e, do ponto de vista do terapeuta, que ele
próprio confunda arteterapia com o trabalho de arte-educação, tentando transformar seu cliente em artista.
Também tem havido estudos acerca dos resultados do contato com formas de manifestação artística no desenvolvimento cognitivo das crianças. Há maternidades nos estados que têm oferecido música clássica para parturientes e seus bebês com o claro objetivo de que, com isso, as crianças se tornem mais inteligentes. O pesquisador Edwin Gordon, no entanto, já em 2004 questionava a idéia. Embora seja defensor do ensino da música desde o nascimento, Gordon acredita que os primeiros três anos de vida são cruciais para o desenvolvimento da aptidão musical. Porém, esta, a seu ver, não infl uencia a inteligência nem a criação de mentes com habilidades matemáticas. “Assim como a aprendizagem de uma língua é tanto melhor quanto mais rico for o vocabulário que se ouvir, o mesmo se passa com a música.” Afi nal, “o que aconteceria às crianças se os pais esperassem até os cinco anos para falar com seus fi lhos pela primeira vez?”, ele compara.
Há muito mais, com certeza, a ser explorado e compreendido sobre Psicologia da arte e sobre arteterapia. Para este segundo tema, uma contribuição interessante pode ser o livro Psicologia e arte, de Giuliana Bilbao (Editora Átomo & Alínea, 2004). O livro coloca o leitor em contato com esta área emergente no campo da Psicologia. No intuito de compreender melhor a prática da arteterapia e sua validade em um contexto em que tantas práticas surgem sem respaldo científi co, algumas questões nortearam o trabalho: a arte tem valor terapêutico em si mesma? O que a Filosofi a tem a dizer sobre a arte? Como a Psicologia vem abordando o fenômeno artístico com o passar do tempo? O que o artista tem a dizer sobre a arte? O livro resulta da dissertação de mestrado da autora, intitulada O artista e sua arte: um estudo fenomenológico. Sua pretensão, ela afi rma, não é esgotar o tema, mas, sim, abrir questionamentos que estimulem a produção de novas pesquisas para fundamentar cientificamente uma prática já consolidada em outros países.
Campos, Rose. Arteterapia. Publicado na revista psique ciência & vida, págs. 28 a 35. Internet, disponível em http://www.arteeterapia.com.br/Artigos.asp.